quarta-feira, 4 de maio de 2011

MULHERES

    Não sou poeta, como Martinho da Vila e Chico, mas também posso falar que tive mulheres muito importantes na minha vida. De algumas tenho saudades que ainda desconheço, de outras, trago uma saudade pesarosa, e outras tantas, eu admiro por sua obra e significado, por sua luta desigual e insana, por sua força e fragilidade.
     Tenho saudades das minhas avós, que nunca pude conhecer. A materna, dizem, era pessoa muito pobre e, tal como a minha mãe, deixou este mundo cedo demais. É só o que sei dela. A paterna, ao saber da traição do marido, morreu de parto, jovem ainda. No desespero, meu avô deu a criança, um menino, em adoção e nunca mais se soube dele.
     Meu pai contava de suas lembranças, dela sentada no chão, ao lado de meu avô, aprendendo com ele as artes da costura. Sempre que ouvia esta história, que ele não se cansava de repetir, imaginava uma moça morena, cabelos compridos e levemente ondulados, muito meiga e carinhosa, suavemente atenta ao que o marido lhe ensinava.
     Mais tarde, bem mais tarde, vim a conviver com uma avó! A mãe de meu esposo.

    Ao ver o seu desvelo com os netos (quatro meninas e um menino), seu carinho, a felicidade com que cuidava deles passei a acreditar que minhas avós deveriam ter sido assim também, pois toda avó é sempre um pouco babona mesmo!A partir de então, passei a amá-las profundamente, a sentir-me neta, e pensar que da mesma forma sou amada por elas, onde quer que estejam.
     Parece uma sina, pois da minha mãe de barriga, pouco ou quase nada conheço. Sei que era daquelas mães que os filhos vão dobrando, dobrando, até o ponto em que ela se incanzinava e ai era um salve-se quem puder! Nas poucas fotos de família, vê-se uma garota muito bem sentada, delicada e séria. Não se tem dela um sorriso sequer, somente uma ruga de preocupação, marcando a testa ainda tão jovem. Dela tenho saudades estranhas. Dos carinhos que talvez tenha recebido e não recordo, das lições que dela não recebi, sobre suas experiências de uma vida tão brevemente encerrada. Morreu aos 40 anos, deixando-me ainda bebê.


     As mulheres mais importantes foram minha madrasta e minhas 3 irmãs. Das irmãs recebi o exemplo de cantar em coral, de me enfeitar para o carnaval, do prazer da leitura, das conversas inteligentes e de dançar muito, sempre. Lembro-me que adorava vê-las sentadas na penteadeira, passando laquê, penteando-se, esperando o namorado às escondidas do meu pai. Delas, eu recebi também, o exemplo de nunca me curvar à prepotência e à violência. De enfrentar a autoridade, da coragem de “responder” a alguém injusto, mesmo sabendo que o resultado seria um castigo físico.

     Minha madrasta me criou desde os 02 anos de idade. Desta mulher recebi o exemplo de força, coragem e inflexibilidade, mas nunca soube que ela havia sido dona de uma empresa, nunca contou dos seus sonhos, desconfiava das tristezas, mas ela parecia tão forte, sempre tão brava, nunca se abria. Sempre fiquei dividida em vê-la como minha mãe e madrasta, mas independente a isso, amava-a profundamente.
  
     Falando sobre mulheres, lembro das amigas. Aprendi os trejeitos e os jeitos de ser mulher em casa. Mas a viver e sobreviver em sociedade, eu aprendi com elas..


     Foi ao lado da Regina e Néia, que atravessei a infância, adolescência e juventude. Como era bom passarmos as tardes brincando, “imaginando” brincadeiras, porque brinquedo quase não se tinha. Foi com Neia que aprendi a andar de bicicleta, já adolescente e aprendi também, mesmo sem o saber, que uma amizade torna tudo o que é bom e belo, melhor ainda, e o que é triste, bem mais fácil de suportar.


     Com a Regina aprendi a exercer a religiosidade que já possuía, sem a interferência dos padres, freiras, catequistas, etc, embora sua presença estivesse subentendida entre nós, pois que nas nossas brincadeiras de missa, o padre era simplesmente ela! E o fazia com autoridade máxima! Estas missas nunca acabavam bem, embora sérias, porque eu simplesmente de uma hora para outra, dizia alguma palavra menos adequada e o “padre” libertava sua ira sobre minha pobre cabeça. Até hoje tenho medo que as ameaças dela se concretizem!


     Paralelamente a vida escolar, que foi um período de muitas descobertas, nós adentramos na vida amorosa juntas, maravilhadas, encantadas com as imensas possibilidades que se descortinavam aos nossos olhos. Ao seu lado fiz minhas descobertas, com seus conselhos tomei minhas decisões.
    Conheci a Nádia, quando participei como daminha na Festa do Espírito Santo. Um corte de tecido rosa, que quase não deu para um vestido, a sandália da minha mãe que não serviu e deixou o meu dedão de fora, um cadarço de tênis preto e algumas chaves velhas, foram o arremedo de um colar, mas tudo era festa, porque a Nádia era a animação em pessoa.


      Diante do exemplo da Jacque, que quando conhecemos já escrevia poesias, foi muito simples, de simples questionários, passarmos a desenhar no papel os nossos sentimentos, dúvidas, sonhos e inúmeras decepções. Ao contrário da Regina e dela, de tempos em tempos eu conseguia rimar alguma coisa, mas no geral, escrever poesias foi só uma maravilhosa terapia e um grande sossego para os meus pais e familiares. Ao todo foram 14 cadernos de poesia, que havia intitulado Memórias de uma Adolescente.
     Findo o período escolar, começamos nossa vida profissional e outras amigas vieram, mas, ficou a amizade e a recordação deste tempo maravilhoso que passei ao lado delas. Cumprido o pacto de batizar os primeiros filhos uma da outra, Jacque hoje é, além de grande amiga, minha comadre.


     Graças a internet pude reatar as conversas com ela, Zuleida e Regina.


 Voltei, após longos e inexplicáveis anos, a conversar com minha querida amiga Neinha e Nádia, junto com sua irmã Nadine, conseguiu me tirar da tristeza que sobreveio as perdas que havia sofrido em 2004. 

  Sempre que vou a Laguna, revejo aquele jardim e relembro de todas elas, inclusive das que não mencionei aqui, de sua amizade e grande importância, em cada uma das fases pelas quais passei, ou em todas ao mesmo tempo. 


Querendo falar tanto, vejo que escrevi tão pouco, do tudo que estas belas mulheres representam e representaram na minha vida. Elas mereceram e merecem, muito mais do que cem rosas.


4 comentários:

  1. Amiga, como é bom termos lembranças. Podem ser alegres ou tristes, mas são nossas. E triste daquele que não tem nada para se lembrar, isto significa que não viveu. Eu tive o prazer de te conhecer e mesmo estando longe de ti fisicamente e não nos vermos freqüentemente te tenho no meu coração e nas minhas orações. Ao nos conhecermos, no mesmo instante deu aquela "liga", coisa que não se explica, mas tenho certeza que tu entendes. Um beijão amiga, mesmo longe serás sempre minha AMIGA.

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  2. Eu adoro ter amigas como tu, que enchem a minha bola! Ahahaha!
    Obrigada Stela, é recíproco o sentimento!

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  3. Chorei....!!!!
    Glauce

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  4. Quando escrevi a mensagem do dia das mães no blog, ainda estava sob o efeito desta tua publicação. Na hora em que li, não tive nada para dizer, nada que eu pudesse comentar, me cgradava. Mas, tenha certeza, já na abertura, o teu texto estava lá presente. Espero que o teu domingo especial tenha sido exatamente isso.
    Márcio.

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