domingo, 12 de janeiro de 2014


CARNAVAL EM LAGUNA

         Laguna é a cidade do já teve. Já teve porto, os melhores colégios, ferrovia, três cinemas e teatro. Já foi até centro de referência em cultura no sul do Estado de Santa Catarina.
         No final dos anos 60 e início da década de 70 já não tinha quase mais nada. Para a juventude da época, não havia o que fazer, com o que se divertir, além de alguns bailes, do cinema das 18:30 e 20:30 no domingo, a voltinha no jardim, o sorvete da miscelânea e... casa!
         Excluindo a Festa de Santo Antônio, o ano inteiro era como já disse alguém: “a mais completa solidão”! Por isto, as crianças, os jovens e os adultos esperavam ansiosamente pelo verão e pelo Carnaval.
         O carnaval começava 15 dias antes, com o pré-carnaval, uma espécie de ensaio geral, onde os blocos desfilavam “todas as noites”, exceto as segundas, nas ruas da parte histórica da cidade. Era o Xavante, o Brinca quem pode, o Vila Isabel, e a querida Bandinha Maluca e os Palhaços de Momo, que ia e voltava,  com a criançada correndo atrás deles e deles também!
         Em geral, uma das mães levava toda a pirralhada, elas tentavam nos manter sentados e comportados no meio fio das calçadas, atrás das cordas que nos limitavam mas, no final da noite, as cordas já estavam frouxas, de tanto que passávamos por baixo delas.
         E junto com a batucada, as correrias, tinha o vento, o calor, o sorvete da miscelânea, o picolé de nata e de abacaxi, de butiá, de coco, que o nordeste derretia. Mas aquela delícia não era para todo mundo: só para quem podia. Quem não podia ficava  lambendo os beiços, suportando com galhardia o cheirinho da pipoca estalando, a barriga roncava loucamente, mas, o que importava? Ninguém ligava para isto. Barriga roncava o ano todo e o  Carnaval era curto demais para se ficar pensando nisto e não correr atrás da bandinha, por aquelas ruas estreitas, os pés doendo nos paralelepípedos, esbarrando nos locutores da Garibaldi e Difusora!
         Na volta para casa o cansaço era grande, mas era mais divertido ainda, todos comentando desta ou daquela escola, as gargalhadas da Dona Maria, o nordeste na paixão, areia batendo nos cambitos, mas isto ninguém sentia. Imagine só, onze horas, meia noite e todos na rua. Nem pensar em outra ocasião para isto acontecer. Não! Só o carnaval nos trazia esta liberdade de ficarmos longe do olhar vigilante dos pais e, ainda por cima, até tarde da noite!
         Mas, se por algum acaso, alguma mãe caridosa não podia nos levar para ver a festa de momo, no centro, em casa ninguém precisava ficar! No bairro do Magalhães ainda tínhamos a opção dos ensaios do Xavantes e da escola de samba do seu Djalma, o Aprendizes do Samba, na sua casa, que ficava  bem em frente ao atual clube 3 de maio.
         Lembro-me de um ano, que as carochas invadiram prá valer, a rua ficava preta, mas nem o cheiro medonho delas pisoteadas era suficiente para desestimular a nossa presença na pracinha.
         No ensaio daquelas escolas, o samba corria frouxo. Enquanto isto, na pracinha, as crianças brincavam de ré, de roda, esconde-esconde. Os mais afoitos e sapecas subiam na árvore, ficavam pendurados de todas as maneiras.
         Quando o calor batia, tínhamos o picolé do seu Artur que era bem mais barato que o da miscelânea e também era muito bom. Aliás, o que não era bom numa festa que era esperada o ano inteiro? Tudo valia. Até picolé de gelo!
         Tarde da noite, quando chegávamos em casa, eram só joelhos ralados,mil broncas, ir dormir com os ouvidos doendo e o couro quente das palmadas! Na cama, o que nos esperava era um colchão cheio de grumos, o calor e os mosquitos.
         Mas que nada! Diante de tanto cansaço ninguém prestava atenção nisto, e o colchão cheio de grumos parecia feito de penas!

06/2013

3 comentários:

  1. Zuleida Martins Rosa13 de janeiro de 2014 04:21

    Que lindo, Rita! Enquanto lia, voltei no tempo. Fiquei emocionada. Aprendizes do Samba, com dona Nair, com suas mãos tortas pela artrose, pedindo "Ritmo crianças! Ritmo!". O verão das carochas. Achei que mais ninguém lembrava disso. Os estalos sob nossos pés... Obrigada por esses momentos, amiga querida.

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    1. Que bom Zuleida! Com estes comentários me fizestes lembrar da dona Nair.... que infância bonita nós tivemos não é mesmo? Abração e obrigada por comentar!

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  2. que legal, um passeio pela Laguna de ontem, abraços Rita

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